A transição capilar da Ana Selva

Muito antes de sabermos o que era BC e transição capilar, Ana Selva, 23 em Bauru começou a encarar as suas raízes de forma diferente, seu último alisamento foi em dezembro de 2011 e o seu momento de luz foi o dia de sua formatura, depois de passar 9 horas preparando o cabelo para o grande dia, ela ficou linda, mas estava completamente exausta e pouco conseguiu se divertir.

4 Ana alisada 2011 - dia da formatura

Tudo começou na infância, com 11 anos os procedimentos de relaxamento para “soltar os cachos” foi seguido por escovas constantes feitas por sua tia todos os finais de semana, depois de algum tempo nessa maratona, Ana pediu a mãe para fazer um alisamento definitivo, e de 12 para 13 anos ela conseguiu a carta de autorização da mãe para realizar o procedimento. Com o apoio da sua mãe cacheada assumida e orgulhosa e um pai cheio de amor pelos cachos das duas, incentivo era o que não faltava em casa para ser cacheada, já quanto se encontrava com os parentes ou ia para escola o papo era diferente.

11 Ana e mamãe Claudia. cacheadas mais que lindas!!

Cabelo de Bom Bril!!!! Ana deve ter escutado isso mais vezes do que se pode lembrar, em um ambiente escolar em que todas as meninas tinha cabelo liso ou cachos tipo 2 era fácil ser o alvo principal de chacotas, adicione ao bullying na escola uma tia que tinha um relacionamento de ódio com o próprio cabelo esteve sempre presente, era ela que fazia a escova em Ana, além de lembrar constantemente que o cabelo da Ana e de sua prima (a própria filha da tia) eram feios, ruins de pentear e que por fim, davam era muito trabalho mesmo. Foi essa tia que alisou o cabelo da Ana e o da filha também.

1.1 Ana criança

Com receio Ana lembra de um momento que deixou marcas, em certa situação esta tia viu uma menina de costas com o cabelo muito liso e loiro e não poupou elogios: “Nossa, olha que lindo o cabelo daquela menina, que perfeição, imagina se o cabelo de vocês fosse assim, ia ser muito melhor, olha pra isso…”. Para a surpresa da tia, quando a criança se virou ela possuía uma deficiência que Ana não soube identificar, mas o rosto possuía deformações que chocaram a tia, sem graça com a situação e sua postura a tia começou a tentar se convencer que o cabelo das meninas estava ótimo do jeito que estava.

Deixar o alisamento e a chapinha não acontece do dia para noite, na maioria dos casos, todas as crespas tem carregado uma carga emocional de anos, e a transição é apenas a consequência de quando alcançamos o nosso limite, neste caso, ao se sentir escrava da chapinha e do secador, Ana não tinha paciência, ficava dias sem lavar o cabelo, se São Pedro mandasse umas gotinhas era um martírio. Com o incentivo da mãe e da irmã e algumas notícias de alisamentos que não deram certo e acabaram em tragédia, Ana precisou só de uma coisinha para dizer chega, o cansaço na sua tão esperada formatura.

 

Sem a maioria das informações que temos hoje, Ana seguiu na sua transição, depois de um ano a chapinha não segurava a raiz, então ela fez a decisão perfeita de a abandonar de vez e seguir o restante da transição de gel e coque, um ano e três meses depois, tchau tchau pontas lisas, era dia de BC e vamos deixar as palavras da Ana sobre esse momento aqui:

“Tive muito medo mas quando aconteceu, nunca me senti tão livre!! Foi sensacional!! Me senti linda demais!!”

Bom, agora era vida nova para Ana, as principais mudanças? Autoconfiança, autoestima lá em cima e um amor próprio imbatível, e se você perguntar o que os outros acharam da mudança, o mundo é só elogio para Ana, até aquela tia lembra? Se rendeu aos cachos (parece que o jogo virou não é mesmo?)

A gente sempre quer saber o que essas novas empoderadas do pedaço querem mudar na mídia se pudessem e a mensagem da Ana é de luta:

“Há muito a se fazer, com toda certeza. O racismo inicia na mídia, nas marcas que vendem produtos para “domar” crespo, para “abaixar o volume”, quando diz que quem tem cabelo liso é mais bonito. A luta precisa vir de nós mesmas, nós precisamos mostrar que somos bonitas sim, que todos nós somos lindas, cada uma de sua maneira; que representatividade importa sim e MUITO. Pouco a pouco estamos conseguindo o nosso espaço, tanto que as marcas estão fazendo produtos indicados para nós, tanto que se fala no assunto como nunca se falou antes… Vemos vendedoras em lojas de cosméticos empoderadas, que elogiam nossos cachos, que incentivam. Creio que estamos no caminho certo, mas com uma batalha árdua a ser superada.”

No final de toda essa história a mensagem de Ana para quem está em transição é simples e direta: “NÃO DESISTA, vai valer a pena!” e deixa o seu mantra de incentivo “Nosso cabelo NÃO é MODA, é resistência!” . Quando a gente toca no assunto de alisar o cabelo outra vez na vida, ela é enfática: “NUNCA MAIS, aprendi a me amar como sou e que a minha beleza natural é linda, independente de padrões. Aprendi a cuidar dos meus cachos e amo essa tarefa. Tudo virou prazer e não sacrifício”.

14 Feliz da vida!!!

A Ana é estudante de Relações Públicas e deixou um trabalho que fez sobre a Marcha do Orgulho Crespo na sua cidade, vale dar uma olhadinha:

https://www.youtube.com/watch?v=bQcThd-OAhk

 

Arquivos Png-01 (1)

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